Não é tão comum que eu faça um
relato como hoje, mas acho que é válido. Com a notícia da venda do Estádio Wolmar
Salton, resolvi me despedir deste antológico lugar. Me despedir fisicamente,
afinal tenho lembranças vivas como os momentos em que passei lá, embora não
tenha sido muitos, foram marcantes. Vale a pena ressaltar o principal, o
conturbado 1 a 1 na Copa FGF de 2004, eu é claro, vestia quatorze ao lado do
meu pai, mas o local era aquele.
Eu realmente sou apaixonado pelas
coisas que me cativam, meu clube tricolor enraizado no coração da São
Cristovão, meu Opala Comodoro 1982, uma boa música e as pessoas que merecem tal
proeza, mas há uma paixão que outrora começou como “hobbie” e hoje já se
transformou numa paixão inexplicável.
Os estádios são lugares mágicos,
são lugares que afloram teu lado cultural e reacendem histórias, lendas, fatos
e tudo mais que faz arrepiar qualquer amante do futebol. Muito além do futebol,
os alicerces e toneladas de concreto que sustentam os pilares de um estádio,
sustentam uma história de vida, muito mais rica que uma história de vida
pessoal, pois se trata de uma vida de um povo. Era aí que eu gostaria de
chegar, afinal o que foi chamado de “O mais querido da cidade”, hoje amarga
públicos modestos e de quebra, amarga no estádio do seu rival, o grandioso 14
de Julho. Tem de conviver com o Vermelho lhe ofuscando e lhe secando 90 minutos
por semana e o tridente do Brasinha cutucando as bolas para o gol alvi-verde,
afinal o Vermelhão é o Passo Fundo, o Passo Fundo é o Vermelhão e o que as
pessoas ainda não entenderam é que, o Wolmar Salton é o Gaúcho e vice-versa. Na
camisa está cravada a história quase centenária do clube alvi-verde mas a
história do POVO periquito está cravada no coração do Boqueirão, que hoje dá
suas últimas pulsadas, como um idoso que foi a guerra e iria de novo, mas quis
o dinheiro que não o fosse.
É triste ver a “aculturação” que
sofremos hoje em Passo Fundo, é triste ver páginas e páginas de histórias se
minimizando dia-a-dia e sendo esquecidas, engavetadas por aí em fotos e relatos
de antigas pessoas que hoje estão se indo pouco a pouco, levando consigo o
desgosto do que uma cidade tão rica em história fez com sua cultura. Não é
preciso andar muito para vermos, há “aculturação” em tudo e ainda como se não
bastasse o descaso e o abandono, agora resolveram destruir o que resta. E tem
aqueles que ainda batem o pé, “ah mas o gaúcho ganhou terreno, tem que
construir um estádio novo, blablablablabla.”. É tão sem sentido, que se
pararmos para comentar, perderíamos tempo e ganharíamos horas de indignação.
Já pesquisei porque em 1986 o
Passo Fundo jogou no Wolmar Salton, nada muito concreto me veio, eu costumo
pensar que na época o Estádio Vermelhão da Serra ainda era “retirado” demais da
cidade, tendo em vista que o Bairro São Cristovão, embora seja o maior, não é
tão antigo quanto o Bairro Boqueirão, o que facilitaria para o povão que na
época não detinha de carros tão comumente. O Passo Fundo sempre foi do povão,
não era diferente nessa época. Fato é que foi lá que o clube ergue seu segundo
Título Estadual, conquistando a Série B de 1986, taça erguida por Darci Munique,
o Valderrama do Planalto. Não há vez que eu entre no Wolmar Salton que não
lembre disso e esta é a parte mais linda da história do Estádio pra mim, o que
é claro, é a pior para a torcida do
clube Alvi-Verde.
O futebol moderno é visível a
olho nu nos clubes de maior porte, a modernização dos estádios, o preço dos
ingressos, o descaso com o torcedor, a marra dos jogadores é tão escancarado
que agora, alimentado pela mídia, o futebol moderno passou a ser a melhor coisa
do mundo, todos esperam ansiosamente a Copa do Mundo e não vêem seus times
enterrando a história do clube, a cultura e tudo mais. Embora achem que não, no
futebol alternativo também o futebol moderno faz suas vítimas, o futebol
moderno persiste diariamente em bater a porta do Vermelhão da Serra mas sempre
haverá algum ‘louco’ lá para impedir, protestar, fazer vista grossa e não
deixar que a cultura morra. Afinal tomar uma gelada no Bar do Carlão antes do
jogo, comer um churros do Tiozão, comer um pastel da Copa, um amendoim do “assovio”.
E o que falar de “DÁ UMA DAQUELAS!”, bem, acho melhor pararmos por aí(hehe).
Fato é que a cultura persiste no Bairro São Cristovão, foi resgatada do
abandono pela Torcida Organizada do clube desde 2007, foi resgatada também com
os jogadores que honraram nossa camisa, principalmente neste ano, e a história
vem sendo resgatada porque tem alguém lutando por ela. Se os periquitos estão em extinção, não sei,
mas que eles não defenderam de forma alguma seu ninho, não posso deixar de
ressaltar e lamentar. Adoraria ver mais um gaPAS no Wolmar Salton, mostrar que
cantamos mais alto, mostrar que temos mais amor, mostrar que temos mais alento,
mostrar que hoje somos muito mais mas acima de tudo mostrar dentro de campo que
a nossa cultura de atacante matador bêbado sempre foi muito mais que a cultura
do caneleiro e soberbo que pairou outrora no Bairro Boqueirão.
Salve o Estádio Wolmar Salton. Salve o Futebol. Não ao futebol moderno.
Salve o Estádio Wolmar Salton. Salve o Futebol. Não ao futebol moderno.
Salve o 14 de Julho, o maior
clube da cidade, Salve o Estádio Vermelhão da Serra, enquanto eu tiver vivo, lá será o estádio do
meu amado clube.
Agradecimento ao Luciano Bernarth, que tirou a fotografia.

Bom texto Marcelo. Impossível não pensar o quanto seria louco um clássico na extinta casa deles. Mas é isso, o Wolmar hoje é a cara do atual Gaúcho. É amadorismo, é várzea. Uma pena, mais pelo estádio do que pelo time, mas é uma pena.
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