sábado, 24 de novembro de 2012

A História Chora...


Não é tão comum que eu faça um relato como hoje, mas acho que é válido. Com a notícia da venda do Estádio Wolmar Salton, resolvi me despedir deste antológico lugar. Me despedir fisicamente, afinal tenho lembranças vivas como os momentos em que passei lá, embora não tenha sido muitos, foram marcantes. Vale a pena ressaltar o principal, o conturbado 1 a 1 na Copa FGF de 2004, eu é claro, vestia quatorze ao lado do meu pai, mas o local era aquele.
Eu realmente sou apaixonado pelas coisas que me cativam, meu clube tricolor enraizado no coração da São Cristovão, meu Opala Comodoro 1982, uma boa música e as pessoas que merecem tal proeza, mas há uma paixão que outrora começou como “hobbie” e hoje já se transformou numa paixão inexplicável.
Os estádios são lugares mágicos, são lugares que afloram teu lado cultural e reacendem histórias, lendas, fatos e tudo mais que faz arrepiar qualquer amante do futebol. Muito além do futebol, os alicerces e toneladas de concreto que sustentam os pilares de um estádio, sustentam uma história de vida, muito mais rica que uma história de vida pessoal, pois se trata de uma vida de um povo. Era aí que eu gostaria de chegar, afinal o que foi chamado de “O mais querido da cidade”, hoje amarga públicos modestos e de quebra, amarga no estádio do seu rival, o grandioso 14 de Julho. Tem de conviver com o Vermelho lhe ofuscando e lhe secando 90 minutos por semana e o tridente do Brasinha cutucando as bolas para o gol alvi-verde, afinal o Vermelhão é o Passo Fundo, o Passo Fundo é o Vermelhão e o que as pessoas ainda não entenderam é que, o Wolmar Salton é o Gaúcho e vice-versa. Na camisa está cravada a história quase centenária do clube alvi-verde mas a história do POVO periquito está cravada no coração do Boqueirão, que hoje dá suas últimas pulsadas, como um idoso que foi a guerra e iria de novo, mas quis o dinheiro que não o fosse.
É triste ver a “aculturação” que sofremos hoje em Passo Fundo, é triste ver páginas e páginas de histórias se minimizando dia-a-dia e sendo esquecidas, engavetadas por aí em fotos e relatos de antigas pessoas que hoje estão se indo pouco a pouco, levando consigo o desgosto do que uma cidade tão rica em história fez com sua cultura. Não é preciso andar muito para vermos, há “aculturação” em tudo e ainda como se não bastasse o descaso e o abandono, agora resolveram destruir o que resta. E tem aqueles que ainda batem o pé, “ah mas o gaúcho ganhou terreno, tem que construir um estádio novo, blablablablabla.”. É tão sem sentido, que se pararmos para comentar, perderíamos tempo e ganharíamos horas de indignação.
Já pesquisei porque em 1986 o Passo Fundo jogou no Wolmar Salton, nada muito concreto me veio, eu costumo pensar que na época o Estádio Vermelhão da Serra ainda era “retirado” demais da cidade, tendo em vista que o Bairro São Cristovão, embora seja o maior, não é tão antigo quanto o Bairro Boqueirão, o que facilitaria para o povão que na época não detinha de carros tão comumente. O Passo Fundo sempre foi do povão, não era diferente nessa época. Fato é que foi lá que o clube ergue seu segundo Título Estadual, conquistando a Série B de 1986, taça erguida por Darci Munique, o Valderrama do Planalto. Não há vez que eu entre no Wolmar Salton que não lembre disso e esta é a parte mais linda da história do Estádio pra mim, o que é claro, é a pior para  a torcida do clube Alvi-Verde.
O futebol moderno é visível a olho nu nos clubes de maior porte, a modernização dos estádios, o preço dos ingressos, o descaso com o torcedor, a marra dos jogadores é tão escancarado que agora, alimentado pela mídia, o futebol moderno passou a ser a melhor coisa do mundo, todos esperam ansiosamente a Copa do Mundo e não vêem seus times enterrando a história do clube, a cultura e tudo mais. Embora achem que não, no futebol alternativo também o futebol moderno faz suas vítimas, o futebol moderno persiste diariamente em bater a porta do Vermelhão da Serra mas sempre haverá algum ‘louco’ lá para impedir, protestar, fazer vista grossa e não deixar que a cultura morra. Afinal tomar uma gelada no Bar do Carlão antes do jogo, comer um churros do Tiozão, comer um pastel da Copa, um amendoim do “assovio”. E o que falar de “DÁ UMA DAQUELAS!”, bem, acho melhor pararmos por aí(hehe). Fato é que a cultura persiste no Bairro São Cristovão, foi resgatada do abandono pela Torcida Organizada do clube desde 2007, foi resgatada também com os jogadores que honraram nossa camisa, principalmente neste ano, e a história vem sendo resgatada porque tem alguém lutando por ela.  Se os periquitos estão em extinção, não sei, mas que eles não defenderam de forma alguma seu ninho, não posso deixar de ressaltar e lamentar. Adoraria ver mais um gaPAS no Wolmar Salton, mostrar que cantamos mais alto, mostrar que temos mais amor, mostrar que temos mais alento, mostrar que hoje somos muito mais mas acima de tudo mostrar dentro de campo que a nossa cultura de atacante matador bêbado sempre foi muito mais que a cultura do caneleiro e soberbo que pairou outrora no Bairro Boqueirão.

                Salve o Estádio Wolmar Salton. Salve o Futebol. Não ao futebol moderno.
Salve o 14 de Julho, o maior clube da cidade, Salve o Estádio Vermelhão da Serra,  enquanto eu tiver vivo, lá será o estádio do meu amado clube.


Agradecimento ao Luciano Bernarth, que tirou a fotografia.

Um comentário:

  1. Bom texto Marcelo. Impossível não pensar o quanto seria louco um clássico na extinta casa deles. Mas é isso, o Wolmar hoje é a cara do atual Gaúcho. É amadorismo, é várzea. Uma pena, mais pelo estádio do que pelo time, mas é uma pena.

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